EM DIA COM A IGREJA – Pe. Valdery da Rocha*

“…SE ISTO AO BOM LADRÃO, QUANTO MAIS A TI…”

(Homilia na Missa de Exéquias do Monsenhor Edson (Matriz de Acaraú, Diocese de Sobral – 30 de março de 2010 , às 9 horas)

Convidado pelo Administrador da Diocese, Reverendissimo Pe. Nonato Timbó, para proferir nesta Santa Missa, a homilia das exéquias de Monsenhor José Edson Magalhães concluí por me dar o direito de não recusar seu apelo, não confiado em meus pobres méritos, mas tão somente lembrado de que ele, Monsenhor Edson, há pouco tempo, havia confiado a mim a honrosa tarefa de fazer a homilia em seu Jubileu de Ouro Sacerdotal celebrado aqui, no patamar desta Igreja, a 19 de janeiro de 2008. O motivo que monsenhor Edson alegou para a escolha foi que eu o conhecia muito bem. Por ser verdade, não duvido que, se lhe tivesse sido dada a oportunidade de escolher o pregador de suas exéquias, de novo escolheria a quem conviveu com ele, estreitamente e há mais de 45 anos, e que guarda dele as melhores referências de homem dedicado à Pastoral, do homem culto, versado no conhecimento das Sagradas Escrituras, da Filosofia e da Teologia, sempre cuidadoso em se atualizar através de leituras e de Cursos que, até nestes últimos dias, freqüentava com assiduidade. Não é sem razão que, dentre nós sacerdotes, tinha em casa a melhor e mais completa biblioteca.

Aceito o convite, dei-me ao trabalho de, por respeito a ele, colocar antes no papel o que deveria falar aqui. Era para lhe ser fiel, imitando-o no seu jeito responsável, jeito que guardou até o fim, de escrever suas ricas homilias e pregações, mesmo aquelas que seriam dirigidas às comunidades mais simples de nossas paróquias.

Quem foi Monsenhor Edson? Alguém que, há mais de 50 anos, no dia 19 de janeiro de 1958, nesta Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Acaraú, pelas mãos de dom Avelar Vilela Brandão, por indicação de dom José Tupinambá da Frota, bispo diocesano, foi ordenado sacerdote tomando para si, como força inspiradora de sua missão, as palavras que o evangelista Lucas coloca na boca de Jesus, quando este quis por à prova os que queriam segui-lo: “Vai também e anuncia o Reino de Deus” (Lc. 9, 60). O jovem sacerdote, nascido aqui também, a 12 de outubro de 1931, fez de sua vida um serviço ao Evangelho. Durante 7 anos e cinco meses na Paróquia de São Francisco da Cruz, da qual foi o primeiro Vigário, e por longos 44 anos e seis meses, na Paróquia de Acaraú, onde, com muita saúde e força de trabalho, celebrou as alegrias de seu Jubileu de Ouro sacerdotal.

O itinerário de Monsenhor Edson foi o mesmo de gerações de sacerdotes que entre nós fizeram a Evangelização. E nos acostumamos a ver, repetidamente, heroísmos em jovens que deixaram tudo para seguir o Mestre. No caminhar da sua vida, conscientemente, ele se consumiu e se entregou ao serviço do Senhor, na igreja diocesana de Sobral. E qual “vela acesa no altar do sacerdócio gastou sua vida toda para acender luzes na vida do povo de Deus.”. Gerações de crianças, de jovens, de casais novos e maduros, e de famílias inteiras poderão dar seu testemunho agradecido das sábias orientações que receberam de seu pastoreio em Acaraú e em Cruz. Uma gratidão sentida que se estende aos seus pais. A eles que o trouxeram à vida: Quincas Magalhães e dona Eulina Brandão, os dois já chamados para a Casa do Pai.

Com apenas 12 anos, nem adolescente ainda, foi o pequeno Zéedson, à semelhança de tantas outras crianças, encaminhado pelos pais ao Seminário da Betânia, em Sobral, em tempo de difícil comunicação, a 8 de fevereiro de 1944, para ali aprender os caminhos da seara do Evangelho; aprendizado que continuou até o final dos seus estudos filosóficos e teológicos no Seminário da Prainha, em Fortaleza, no final de 1957.

Quando monsenhor Edson se ordenou padre, tudo de novo que hoje temos na Igreja, ainda estava por acontecer. Atentos aos sinais do tempo, atualizado, ele buscou responder às inquietações e apelos do momento, inserindo-se de já nas orientações e projeções do Concílio Vaticano II que, em vida, ele vê, com tristeza, serem esquecidas e deixadas à margem.

Afeito à reflexão, cedo, no seu primeiro trabalho como Pároco em Cruz, percebeu a ingente tarefa de transformação que lhe competia na evangelização para aqueles dias. É o está registrado no livro de tombo da Paróquia de Cruz, escrito por ele mesmo, a 3 de maio de 1958, antes de completar um mês de sua chegada: “Ninguém pode negar que o povo da sede da Paróquia é em geral religioso. Trata-se, porém, como costuma acontecer em quase toda parte, de uma religiosidade sem fundamentos racionais. Não é o cristianismo objetivo, o cristianismo que se encontra nas páginas do Evangelho, o cristianismo do Cristo, afinal.O cristianismo vivido ou praticado pelo povo é um cristianismo engendrado ao seu gosto, indulgente, desvirtuado.”

Antecipando-se, marcou seu primeiro paroquiato pelas inovações: na preparação e execução das festas do padroeiro, desvinculando-as da preocupação com arrecadação de dinheiro; pela inclusão de leigos e leigas na evangelização direta; pela criação inusitada de equipes pastorais, com reunião quinzenal: Equipe de Influência; Equipe de Aniversário; Equipe de Enfermos; de Casais; de Liturgia; Equipe da Boa Imprensa; Equipe da Cáritas; Equipe da Catequese.

Desde cedo, nas suas reflexões em grupos ou nas homilias que pronunciava, sempre fazia, com agrado, o papel da consciência crítica da sociedade e da Igreja. Entendendo que a configuração do padre é com Cristo – Bom Pastor, foi constante numa solidariedade concreta com o povo de Deus, sem vínculos ideológicos ou interesses de política partidária. Como tal o padre será, sim, pai, irmão, amigo. Esta compreensão certamente, o impediu de tornar-se, como lhe era sugerido, um líder político, ou um mero assistente social. Mas não o dispensou de sofrer com o seu povo em dificuldade. È o que deixou registrado, já em agosto de 1958, quando, ao assumir sua primeira Paróquia (Cruz), viveu as agruras de mais uma seca nordestina: “A seca está castigando duramente o pobre povo. E nesta hora de caminhada tão exaustivamente dolorosa para o nosso Calvário, só contamos com um Cirineu: o Episcopado americano que nos manda u’a migalha de leite em pó. Não adianta bater às portas dos poderes públicos, porque aos nossos reclamos, respondem sempre com um revoltante sorriso de indiferença e de incredulidade.”.

Quem conviveu com ele sabe que, entre nós, ele foi aquele que melhor entendeu o ser do presbítero como “co-responsável” pela edificação da Igreja local como um todo. O trabalho em comunhão, também com Cristo, torna mais suaves os deveres pastorais dos presbíteros, como acenou o Evangelho: “o meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt. 11 30).

É por isso que a sua ação, durante muitos anos e até a pouco tempo, como Coordenador e Vigário Episcopal neste Regional, fez desta Região Vale do Acaraú, reconhecidamente, uma das mais integradas do conjunto de Regiões que formam a Diocese de Sobral. Mérito dele.

Monsenhor Edson! Este belo templo dedicado a Nossa Senhora da Conceição, que a sua lucidez e zelo de pastor, ao cuidar dele, durante 45 anos, conservou original, nada acrescentando ou retirando, acolhe nesta manhã de terça-feira da Semana Santa, diante de seu corpo inerte, as orações e as homenagens de seus familiares, de seus colegas sacerdotes, de seus paroquianos de Acaraú, Cruz, Jijoca, Aranaú, Caiçara e Celsolândia, das autoridades civis, de seus inúmeros amigos e amigas, admiradores de seu trabalho e de sua missão.

Monsenhor Edson! A ciência médica, sabemos, atestou que você não ouve mais, não fala mais; que seu coração parou na manhã de ontem, dia 29. Sim. Mas a fé nos anima a entender que não será demais esperar que você esteja ouvindo estas palavras, esteja vendo esta multidão de amigos que lhe prestam uma última homenagem; que não será demais esperar que seu coração mesmo se emocione com a beleza destes cânticos que tantas vezes você ajudou esta comunidade a cantar, a beleza desta liturgia que, como sacerdote e ministro do altar, você tantas vezes presidiu. Sustenta-nos esta certeza a verdade da Comunhão dos Santos, a verdade do Evangelho de João quando diz: quem crê em mim, ainda que esteja morto viverá. Se isto não basta, socorra-nos a razão a palavra que Jesus, no Evangelho de Lucas, o cantador das misericórdias de Deus disse ao bom ladrão, na cruz. “Ainda hoje estarás comigo no Paraíso” (Lucas 23,43). Se isto ao bom ladrão, quanto mais a ti que testemunhaste Cristo na terra, a ti que pediste fosse o teu corpo guardado nesta Igreja de Nossa Senhora da Conceição, aos pés do Coração de Jesus, a ti que foste amante da justiça e colocaste o melhor de tua atividade pastoral a serviço dos injustiçados e excluídos da sociedade, os quais animaste nas diversas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).

Monsenhor Edson, que pena que você nos deixou! Ficará o testemunho da tua amizade expresso na camisa que vestias ontem em tua caminhada matinal: “amigo é coisa para se guardar no lado esquerdo do coração…”. Não sei se você deixou anotado no livro de Tombo da Paróquia uma auto-avaliação do seu pastoreio em Acaraú. Mas, posso afirmar, em nome dos que te conheceram e viveram ao teu lado, que, com muita legitimidade, poderias anotar também como tuas, as palavras que São Paulo, sobre si mesmo, escreveu a Timóteo, as quais ouvimos na primeira Leitura desta Missa “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé” (2 Tm 4,7).

Apenas abristes, domingo último, as solenidades da Semana Santa em tua comunidade religiosa, com a Festa dos Ramos, e Deus te convida para participares da Ceia do Senhor da Quinta-feira Santa, na outra vida, como vem sugerido no Evangelho de Lucas 22, 16: … “até que ela se realize no reino dos Céus”. Calvários já os tiveste pelo teu zelo pastoral desde os inícios do teu pastoreio em Cruz, na seca de 1958, calvários já os subiste pela tua sensibilidade humana de que eras ricamente dotado, quando não pelas agruras que tiveste de suportar em razão da maldade ou da malícia humanas. Agora é a Ressurreição. A Páscoa.

Monsenhor Edson! Em tua vida testemunhaste a Palavra que proclamaste. Agora que o Senhor te chamou para junto de Si, podes ir ao seu encontro e ouvir dele estas palavras: “Servo bom e fiel, entra na alegria do teu Senhor” Mateus, 25,21). Nossa Senhora da Conceição, Mãe de Jesus, o Salvador e Mãe da Igreja, te receba e te recomende a Ele. ‘O coro dos anjos te receba e com Lázaro, o pobre de outrora, possuas o repouso eterno” (Ritual católico de exéquias). Amém.

* Professor do Instituto de Teologia e Pastoral (ISTEP) e Pároco de Cruz